Vacina “contra” HPV: é uma boa idéia?

Texto abaixo sobre a a vacina ” contra ” HPV é esclarecedor… Sugiro a leitura e claro, como sempre, uma reflexão…

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A vacina “contra o HPV” foi introduzida no calendário vacinal brasileiro recentemente.

Não há muitos produtos semelhantes no mercado e o escolhido pertence a uma gigante da indústria farmacêutica. Recentemente foram divulgadas notícias sobre potenciais efeitos colaterais severos. É importante entender, da forma mais isenta possível, o que é mito e o que é incerteza.

A vacina quadrivalente utilizada foca em quatro tipos do HPV: 6, 11, 16 e 18. Os dois primeiros causam as verrugas chamadas condilomas e os dois últimos causam câncer de colo de útero.

O câncer de colo de útero é uma doença que ainda acomete muitas mulheres brasileiras mas há formas de controle com fluxos bem estabelecidos que começa com o tradicional exame de papanicolau.

A vacina quadrivalente já demonstrou em diversos estudos benefício claro contra verruga e contra lesão intraepitelial. Este é o ponto menos divulgado.

A vacina ainda não mostrou consistência na proteção contra câncer e muito menos para morte por câncer de colo de útero. A maioria das lesões intraepiteliais regride espontaneamente e não se pode afirmar que “se protege contra lesões intermediarias irá proteger contra câncer”.

Esta é uma falácia muito usada pela indústria farmacêutica e é conhecida como “desfecho intermediário” ou “desfecho substituto”. Ela joga com a “lógica” ou o “bom senso” mas não se aplica na ciência. O desfecho para o qual se pretende demonstrar benefício deve ser demonstrado.

Ou seja, a vacina não pode ser chamada de “contra câncer” nem “contra o HPV” porque não há demonstração que o vírus ou a maioria dos tipos deixará de circular (como o nome diz ele é “humano” e vive no homem). Portanto, trata-se de um “produto que atua contra verruga e contra lesões intraepiteliais que regridem espontaneamente na maioria das vezes”.

Em geral quando se fala em “vacina” subentende-se uma intervenção populacional que deve atingir toda uma faixa etária para que haja o bloqueio do agente, ou seja, este deixe de circular.

Isso vale para a maioria das vacinas, como por exemplo, do sarampo.Se alguém deixa de vacinar um filho pode estar contribuindo para que o vírus circule mais facilmente.

Porém, com a vacina do HPV, pelos estudos disponíveis, este risco não existe, pois o vírus continuará circulando.

Há inclusive a hipótese de que ao perseguir estes quatro tipos algum mais agressivo passará a se proliferar mais.

Os estudos disponíveis atestam de fato a segurança da vacina. Como qualquer medicamento, há uma chance de efeitos colaterais e os mais comuns, pelo que se pode perceber, são de fato menores como dor no local da aplicação.

Os casos de reações graves estão em análise e não se pode atestar que foram causadas pela vacina pois a cronologia dos fatos não é suficiente para isso.

Os potenciais benefícios só serão conhecidos em décadas porque o câncer é de crescimento lento e não há nada a fazer exceto continuar estudando.

O mesmo acontece com os riscos, em especial os raros e graves. Hoje sabemos que os riscos são pequenos mas os benefícios extremamente incertos.

A inclusão no calendário vacinal de forma quase autoritária foi precoce .Os principais argumentos usados pelo governo ou por profissionais que apoiaram a medida foram de três tipos: muitos países já introduziram, há mulheres que não tem acesso ao papanicolau e não se pode esperar 20 anos.

Nenhum desses argumentos se justifica e a mobilização de recursos poderiam ter sido usados para outras ações, como melhorar o acesso ao papanicolau, já que há incontáveis unidades de saúde que sequer tem maca ginecológica.

Em 2009, no auge da epidemia da gripe suína a então ministra da Saúde da Polonia, Ewa Kopacz, se recusou a comprar uma vacina que foi feita às pressas e sem estudos. Ela disse no Parlamento que quando era médica de família de uma área rural, se guiava pelo princípio do Primum Non Nocere (primeiro não causar dano). Como Ministra da Saúde ela achava que deveria seguir os mesmos princípios. Hoje é a primeira-ministra da Polônia.

GUSTAVO GUSSO é diretor cientifico da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade

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