A prevenção é mesmo o melhor remédio?

Olha que artigo interessante sobre check ups… Colega MFC de Brasilia escreveu…

A prevenção é mesmo o melhor remédio?

A prevenção é mesmo o melhor remédio?

TIAGO SOUSA NEIVA

Presidente da Associação Brasiliense de Medicina de Família & Comunidade

A prevenção é melhor do que a cura. Esse princípio é incontroverso; entretanto, novos conhecimentos apontam para o fato de que a prevenção também pode causar danos. Mediante o conceito de prevenção quaternária, que visa a proteção contra a assistência médica excessiva, são envidados esforços no sentido de se encontrar a correta medida do cuidado preventivo, adequada aos princípios da ética médica, beneficência e não maleficência.

Check-ups gerais, exames envolvendo múltiplos testes em pessoas que não apresentam sinais ou sintomas de doenças, objetivando o achado de condições patológicas e a prevenção de doenças, são elementos comuns a sistemas de saúde em muitos países.

Esses exames, segundo recente artigo do conceituado Jama Internal Medicine, estão entre as razões mais comuns para a consulta a médicos nos Estado Unidos, com uma estimativa de que 44 milhões de americanos viram um médico anualmente entre 2002 e 2004. Foram gastos cerca de US$ 322 milhões por ano com testes laboratoriais que nenhum consenso médico recomendou. É provável que testes de acompanhamento de exames de saúde gerais contribuam, substancialmente, para os estimados US$ 210 bilhões em gastos anuais com serviços médicos desnecessários, segundo o Institute of Medicine, em 2012.

Para grande parte da população, esses exames, intuitivamente, fazem todo sentido. Afinal, a prevenção seria a solução para uma vida saudável. Entretanto, recente publicação do The Cochrane Collaboration, conceituada rede internacional de pesquisadores dedicada a fazer revisões da literatura científica a fim de prover informações mais adequadas para as decisões clínicas, mostrou que os benefícios de tais exames podem ser muito menores do que o esperado, assim como muito mais danosos.

Uma possibilidade de dano por check-ups é o diagnóstico e tratamento de condições que não são destinadas a causar sintomas ou morte. Esses diagnósticos serão, portanto, supérfluos e acarretarão o risco de tratamentos desnecessários. Segundo o The Cochrane Collaboration, foram identificados 16 estudos clínicos randomizados (com elevado nível de evidências) que incluíram mais de 180 mil participantes e que compararam grupos de adultos, parte dos quais fizeram exames enquanto outros não os fizeram. Não houve efeito dos testes laboratoriais no risco de morte, seja devido a doenças cardiovasculares ou cânceres, assim como não houve efeitos em eventos clínicos ou outras medidas de morbidade.

A conclusão dos autores foi que check-ups não são capazes de reduzir morbi-mortalidade, embora possa haver um aumento do número de diagnósticos. Por conseguinte, são, provavelmente, pouco benéficos. Essas evidências e tantas outras similares, que têm ressaltado o quanto o excesso de prevenção pode trazer benefícios duvidosos com riscos aumentados, fortalecem um novo tipo de atitude médica, a prevenção quaternária, termo cunhado por Marc Jamoulle, médico de família e comunidade belga, em meados de 1986.

O conceito de prevenção quaternária, segundo Norman e Tesser nos Cadernos de Saúde Pública, em 2009, a partir do primum non nocere (primeiro, não fazer mal), almejou sintetizar critérios e propostas para o manejo do excesso de ação médica e medicalização, tanto diagnóstica quanto terapêutica, buscando, após a identificação de indivíduos em risco de tratamento excessivo, protegê-los de novas e inapropriadas intervenções médicas, sugerindo-lhes alternativas eticamente aceitáveis.

Os meios mais eficazes de se atingir a prevenção quaternária seriam: ouvir melhor nossos pacientes, a chamada medicina baseada na narrativa, que significa adaptar o medicalmente possível ao individualmente necessário e desejado; também, não menos importante, a medicina baseada em evidências, que seria a aplicação do método científico a todas as práticas médicas, especialmente àquelas tradicionalmente estabelecidas, mas que ainda não foram submetidas ao escrutínio sistemático científico.

Concluindo, somente por meio de uma relação forte e sustentável entre os médicos e seus pacientes, de mútua confiança, honesta e cujas condutas médicas sejam profundamente fundamentadas no conhecimento específico, é que a prevenção será o melhor remédio. De outro modo, pode ser o pior investimento, na doença, não na saúde.

Referências:

1. Norman AH, Tesser CD. Prevenção Quaternária Na Atenção Primária À Saúde. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 25(9):2012-2020, set, 2009.

2. Kuehlein T, Sghedoni D, Visentin G, Gérvas J, Jamoulle M. Prevenção quaternária, uma tarefa do clínico geral. European Wonca Congress, Basel, 2009.

3. Krogsbøll LT, Jørgensen KJ, Grønhøj Larsen C, Gøtzsche PC. General health checks in adults for reducing morbidity and mortality from disease. Cochrane Database of Systematic Reviews 2012, Issue 10. Art. No.: CD009009. DOI: 10.1002/14651858.CD009009.pub2.

4. Silva FC. Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, v. 3, n. 1, p. 131-151, jul./dez. 2005.

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