Os Mitos do Check-up, por Paulo Poli Neto

28 de Março de 2011 – 17:39

Os Mitos do Check-up, por Paulo Poli Neto
Paulo Poli Neto

Check up / Foto: Divulgação
Há dois ditos populares que podem nos ajudar a discutir o tema dos exames preventivos ou do check-up, um dos principais motivos de consulta nos dias de hoje. Um dos ditados é o de que é “melhor prevenir do que remediar” e o outro nos lembra que o “melhor é não mexer no que está quieto”. O primeiro conselho tem sido bastante lembrado por todos aqueles que desejam fazer muitos exames todos os anos e o último costuma ser recordado por aqueles que fogem dos consultórios médicos. Acho que vale a pena discutir com mais calma esses dois enunciados.

A noção de prevenção de doenças não é nova, todo agrupamento humano desenvolveu ao longo de sua história mecanismos individuais e coletivos para se proteger de agravos conhecidos. Assim foi com o fornecimento de água limpa e com a implantação dos banhos públicos na Roma Antiga, por exemplo.

A novidade da medicina moderna não é, portanto, a ideia de atacar a causa antes do problema surgir, prática muito antiga, mas a utilização de exames (como os de glicose, colesterol, mamografia, etc.) em indivíduos sem sintomas para o diagnóstico precoce de doenças. O problema é que as possibilidades tecnológicas dessa medicina nos dão a falsa ilusão de que a realização de testes diagnósticos regulares que vasculhem o corpo em busca de anomalias é a única e infalível forma de prevenção.

É fácil combater essa ilusão. Sabemos que os países que mais gastam com exames não têm os melhores resultados em saúde, sabemos que as populações que têm mais acesso a exames laboratoriais e a aparelhos de imagem (como tomografias, ressonâncias ou cateterismos) não previnem mais cânceres ou infartos do coração do que aqueles países que têm uma quantidade racional desses equipamentos.

O que é ainda pior é que esse exagero na prevenção por meio de exames costuma provocar o efeito contrário do desejado, que é o de submeter pessoas sem nenhum sintoma ou mal-estar a procedimentos arriscados e desnecessários. Um exemplo é o do câncer de mama, de cada 1000 mulheres que fazem a mamografia anualmente dos 40 aos 50 anos, uma terá um câncer identificado (mas não necessariamente curado) e outras 20 retirarão a mama ou parte dela sem necessidade.

Por isso, respeitadas instituições de saúde como o americano United States Preventive Service Task Force (USPSTF) ou o britânico United Kingdom National Screening Comitte recomendam a realização da mamografia somente a partir dos 50 anos de 2 em 2 anos (à exceção daquelas mulheres com história familiar de primeiro grau, ou seja, câncer de mama em mãe ou irmã antes dos 50 anos).

Para esses institutos internacionais e também para o Instituto do Câncer brasileiro (INCA) não se deve também recomendar rotineiramente aos homens acima de 40 anos a realização do check-up da próstata. Como o câncer de próstata costuma surgir em idades mais avançadas e progride lentamente, sabe-se que a grande maioria dos homens com câncer morreria de outras causas sem jamais ter tido qualquer sintoma prostático. Ao se fazer o check-up anual muitos homens serão submetidos a exames e a cirurgias, frequentemente com sérias consequências indesejadas.

Portanto, o ditado “melhor não mexer no que está quieto” tem sim sua razão em relação a uma série de problemas para os quais a medicina não tem uma resposta e em que um exame antecipado pode trazer mais prejuízos do que benefícios. E o famoso “melhor prevenir do que remediar” é um conselho muito sábio, mas não deveríamos entender como prevenção o simples fato de fazer exames médicos anuais.

A melhor forma de prevenir infartos do coração e derrames cerebrais, por exemplo, é ter uma alimentação saudável, com pouco sal e rica em fibras, e fazer atividade física regular. Sabe qual uma maneira simples de prevenir várias doenças e melhorar sua vida e de sua comunidade? Use menos o carro!

Paulo Poli Neto
Médico de Família e Comunidade
Associação Catarinense de Medicina de Família e Comunidade

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s