O espírito da igualdade

O espírito da igualdade
Daniel Oliveira (www.expresso.pt)
0:00 Quinta feira, 23 de Setembro de 2010
6 comentários

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Vive-se melhor nos países mais ricos. Dita esta lapalissada, há um dado perturbante: a partir de um determinado nível de riqueza isto deixa de ser verdade. Garantido o essencial, o rendimento médio dos cidadãos deixa de ter qualquer efeito nos indicadores sociais e de saúde para o conjunto da sociedade.

Dois investigadores britânicos, Richard Wilkinson e Kate Pickett, tentaram descobrir se havia um outro fator que fosse determinante para os indicadores socais e de saúde de cada país. Juntaram uma prodigiosa bateria de dados estatísticos e escreveram “O Espírito da Igualdade” (editado agora em Portugal pela Presença), que deu que falar nas últimas eleições britânicas. Wilkinson e Pickett isolaram os países mais ricos. Vão de Portugal à Suécia e passam tudo a pente fino: confiança entre cidadãos, doenças mentais, toxicodependência, alcoolismo, esperança de vida, mortalidade infantil, obesidade, desempenho escolar, gravidez na adolescência, homicídios, taxas de encarceramento e mobilidade social.

Se se compararem estes indicadores com o rendimento médio por cidadão, não se chega a conclusão nenhuma. No índice geral de problemas sociais e de saúde, os EUA e a Noruega, os dois com o mais alto rendimento por pessoa, são, respetivamente, o pior e o segundo melhor na qualidade de vida dos seus cidadãos. O Reino Unido e a Suécia, que estão a meio da tabela de rendimentos, são, respetivamente, o terceiro pior e o segundo melhor. Portugal é dos poucos que bate certo: o mais pobre dos ricos e o segundo com piores indicadores sociais e de saúde. Ou seja, nos países mais ricos não há qualquer padrão que estabeleça uma relação entre rendimento médio e qualidade de vida.

Depois fizeram o mesmo exercício comparando a desigualdade entre rendimentos em cada país com os índices sociais e de saúde. Singapura, EUA, Portugal e Reino Unido são, por esta ordem, os mais desiguais. Japão, Finlândia, Noruega e Suécia os mais igualitários. O padrão é quase perfeito: os mais igualitários são os melhores, os mais desiguais são os piores. Por fim, tudo isto é experimentado nos vários indicadores, da obesidade à violência. Fora alguns desvios, bate tudo certo. Não são as sociedades mais ricas que conseguem o melhor para os seus cidadãos. São as mais igualitárias.

Dos vários indicadores analisados, há um especialmente interessante: o grau de confiança que os cidadãos têm uns nos outros. Este indicador é determinante para qualquer ideia de comunidade, sem a qual a democracia é uma ilusão. Mais uma vez, repete-se o padrão: as sociedades desiguais são aquelas em que os cidadãos menos confiam uns nos outros – em Portugal, apenas 11% reponde que a maioria da pessoas é de confiança, na Suécia são quase 70%. A desigualdade económica cria um muro entre os cidadãos e destrói qualquer ideia de pertença.

A ideia de que basta continuar a garantir o enriquecimento dos povos para conseguir o melhor para os cidadãos não é confirmada nos países mais desenvolvidos. Nas sociedades de abundância, é a distribuição equitativa da riqueza que garante o bem comum. Não apenas dos pobres, mas de todos. Um bom livro de cabeceira para os que vacilam na defesa do Estado social e para os que julgam que se salvam deixando um mar de excluídos pelo caminho.

danieloliveira.lx

Texto publicado na edição do Expresso de 18 de setembro de 2010

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Um comentário sobre “O espírito da igualdade

  1. Bom dia.

    Meu nome é Déborah Proença e sou jornalista da Revista Brasileira Saúde da Família, do Departamento de Atenção Básica, do Ministério da Saúde. Temos uma editoria na Revista que chama ESF em foco – Saúde da Família no mundo virtual e gostaríamos de entrar em contato com o responsável pelo blog. É possível? Meus contatos são: 61-3315-2135 / 81518508. Meu e-mail pessoal é deborahproenca@gmail.com e o do MS é deborah.rosa@saude.gov.br.
    Aguardo contato urgente.

    Att,
    Déborah Proença.

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