Inimigo do coração

17/05/2010

Inimigo do coração

Carboidrato figura como vilão quando o assunto é coração

Um roteiro clássico de filme policial tem o promotor, o prefeito e a imprensa convencidos de que identificaram o assassino, e só falta tirar o culpado de circulação. Porém, um detetive solitário, geralmente atormentado por seus próprios demônios, pensa que eles têm o homem errado e o verdadeiro assassino está solto pronto para atacar novamente. Este é o cenário que se desenrola há décadas na caça para pegar o alimento responsável pela epidemia de doenças cardíacas, obesidade e diabetes. Desde a década de 70, a maioria das autoridades de saúde e cardiologistas colocou a gordura no corredor da morte, mas agora a pressão para perdoá-la tem crescido por parte de cientistas. Em vez das gorduras, pesquisadores renomados têm indicado os carboidratos, particularmente os refinados e o açúcar, para o banco dos reús. Há vários estudos, que remontam aos anos 60, que não encontraram ligação com corte de gordura na dieta e redução do risco de doença cardíaca, embora alguns apontem isso. A última testemunha de defesa é uma grande análise, publicada em março que diz: “Não há qualquer evidência significativa para concluir que a gordura saturada está associada a um risco aumentado de doenças cardiovasculares”. E se trata de uma investigação séria, publicada na “Revista Americana de Nutrição Clínica”, envolvendo 21 estudos e quase 350 mil pacientes. Além do mais, autores afirmam que a substituição de gordura saturada por mais carboidratos faz com que todos os fatores de risco para infarto e diabetes piorem. – Isto é impressionante – diz Dariush Mozaffarian, da Escola de Medicina de Harvard. – É o que temos feito há anos. Praticamente todos os alimentos de baixo teor de gordura dos supermercados levam adição de açúcar para torná-los mais palatáveis. Médicos recomendam gordura de óleos vegetais Investigação do próprio Mozaffarian sugere que os óleos vegetais poli-insaturados ômega 6, como o de grão de soja, podem reduzir o risco de infarto. Parte do processo de acusação contra a gordura saturada é que ela aumenta os níveis de colesterol total. No entanto, esta ideia “não é baseada em dados”, diz Meir Stampfer, professor de nutrição e epidemiologia na Escola de Saúde Pública de Harvard. O ponto é que, apesar de elevar os níveis de colesterol ruim, o LDL, a gordura também aumenta a taxa da fração boa, o HDL. O dossiê acusando o açúcar de ser uma ameaça muito mais grave à saúde do que as gorduras já está bastante robusto. E mais uma evidência apareceu no mês passado num grande estudo com 6 mil adultos, confirmando que a adição de açúcar aos alimentos processados ou preparados não é boa coisa. O efeito disso, curiosamente, não havia sido estudado. Médicos da Universidade de Emory descobriram que a adição de açúcar afetava dois marcadores de risco de doença cardíaca: eleva os triglicerídeos e reduz o HDL. E mais dois estudos no mês passado reforçam a relação entre o consumo de carboidratos refinados e a maior chance de problema no coração. Um deles constatou que mulheres que comiam mais pão branco, croissants e bolos corriam perigo. Estes são alimentos de alto teor glicêmico, ou seja, carboidratos facilmente absorvidos e que rapidamente elevam a glicose. A outra pesquisa relacionou o uso de adoçante de frutose a um aumento na pressão arterial dos homens. Mas qual é exatamente a forma de agir dos carboidratos? Segundo o cientista Michael Shechter, da Universidade de Tel Aviv e pioneiro no estudo do que acontece nos vasos, alimentos de alto teor glicêmico causam grande estresse na camada interna das artérias. – Isso talvez explique, pela primeira vez, por que os carboidratos de alto teor glicêmico afetam a progressão de doença cardíaca – afirma Shechter, cujo estudo foi publicado na revista da Academia Americana de Cardiologia. Os promotores no caso reconhecem que existem gorduras boas e ruins. E dizem que já recomendam óleos extraídos de vegetais e peixes. O problema é que as autoridades têm sido lentas em reconhecer os malefícios dos carboidratos, diz Charles Clarke, membro do Colégio Real de Cirurgiões de Edimburgo.

Autor: Jerome Burne

Fonte: The Independent

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