Criar doenças mentais só atrapalha tratamento, diz ícone da psiquiatria

Criar doenças mentais só atrapalha tratamento, diz ícone da psiquiatria

Goldberg elaborou e provou a eficácia do uso de questionários mais simples para estimar a prevalência de transtornos psiquiátricos em grandes populações

O psiquiatra que criou uma das ferramentas mais usadas hoje em saúde pública diz que os livros considerados as bíblias dessa área médica pecaram por inventar um número muito grande de doenças mentais.

Na opinião de Sir David Goldberg, professor do King’s College de Londres, psiquiatras precisam abandonar o hábito de subdividir transtornos como depressão e ansiedade em uma infinidade de subtipos e evitar listar comportamentos normais como sintomas de doenças.

Goldberg elaborou e provou a eficácia do uso de questionários mais simples para estimar a prevalência de transtornos psiquiátricos em grandes populações. O feito lhe rendeu prestígio na comunidade médica e seu título de cavaleiro concedido pela coroa britânica.

Em entrevista à Folha em São Paulo, onde esteve para o Congresso Brasileiro de Psiquiatria, falou sobre sua proposta para as novas edições dos livros que ditam o establishment da psiquiatria: o DSM (Manual de Diagnósticos e Estatísticas), da Associação Americana de Psiquiatria, e a CID (Classificação Internacional de Doenças), da OMS. Ele integra as duas comissões.

Folha – Quais são as mudanças que o sr. está propondo para a classificação de doenças mentais?

David Goldberg – Temos transtornos muito relacionados uns com os outros, em diferentes capítulos das duas classificações. Se você tem um transtorno em dois ou mais capítulos, significa que você tem duas ou três doenças completamente diferentes. Acho isso estúpido, porque há apenas variações pequenas de sintomas que distinguem um transtorno do outro.

Estou me referindo aos transtornos emocionais, que incluem as depressões unipolares simples, os estados de ansiedade, os transtornos de medo e os de ordem somática. Essa distinção clara entre doenças não existe na natureza.

Você só pode fazer diagnósticos ignorando alguns sintomas, então seria melhor se os médicos apenas descrevessem os sintomas gerais que as pessoas têm nesse grupo de transtornos.

Hoje, os psicólogos já fazem isso, falam em coisas como “transtorno de pânico com ansiedade geral” ou “agorafobia com pânico” e combinações de transtornos de medo. Nós poderíamos fazer o mesmo. Por que não falamos em “depressão ansiosa”, que é o tipo mais comum de transtorno, ou “ansiedade com sintomas somáticos”, se essas são as combinações que se costuma encontrar?

Folha – No Brasil, a comunidade acadêmica usa mais o DSM, enquanto as autoridades de saúde usam a CID. Isso não gera confusão?

Goldberg – A CID tem três diferentes versões. Uma delas é a versão acadêmica, que é uma “cópia xerox” do DSM. É um xerox muito malfeito, porém, porque há 78 diferenças entre a maneira como ambos definem doenças mentais. É preciso harmonizar essas diferenças, porque ter um diagnóstico definido de duas maneiras diferentes deixa todo mundo louco.

Folha – Alguns psicólogos creem que se diagnostica depressão em pessoas com um tipo normal de tristeza. O DSM e a CID têm culpa nisso?

Goldberg – Com relação ao DSM, há uma tendência de incluir no manual aquilo que se chama de depressão subclínica, abaixo do limiar [para ser considerada transtorno]. Eu me oponho a isso rigorosamente porque não gosto de medicalizar estados de tristeza moderada pelos quais todos passamos. Os pacientes querem saber se existe uma intervenção que vai ajudá-los. Não existe evidência de que, em se tratando da depressão subclínica, eles serão ajudados com uma droga.

Folha – Outro ponto do DSM sobre o qual há controvérsia é o TDAH (Transtorno do Deficit de Atenção e Hiperatividade). Alguns psicólogos dizem que crianças desatentas, porém normais, têm sido diagnosticadas e tratadas com ritalina.

Goldberg – É um risco opinar sobre algo que ocorre em outros países [como os EUA], mas minha impressão é que há diagnóstico em excesso. Mas o que me preocupa mais são as drogas letalmente ativas que estão sendo usadas para tratar crianças hiperativas. Fico alarmado quando crianças as tomam.

Folha – Isso não seria problema se a ritalina não fosse tão usada?

Goldberg – A ritalina é muito eficiente para hiperatividade, não é o caso de bani-la. Muitos professores primários se recusam a ter algumas crianças em suas salas a menos que elas tomem ritalina. Do ponto de vista do ensino, ela é defensável.

Folha – Quanto ao excesso de diagnósticos, se a culpa não é do DSM, são os psiquiatras americanos que estão exagerando?

Goldberg – Há pessoas que não são americanas e se interessam em transtornos subclínicos. Elas querem identificá-los e atribuir-lhes códigos numéricos com aparência científica. Você tem de limitar o que define como doença mental, e o melhor meio de fazer isso é rotular apenas coisas para as quais haja evidência de que tratamentos ativos sejam melhores do que placebos. As evidências são pobres de que a depressão subclínica, por exemplo, é afetada pelo tratamento.

Se perguntar a adolescentes sobre seus hábitos alimentares, aqueles que poderiam ser chamados de transtornos alimentares subclínicos são muito mais comuns do que a bulimia e a anorexia nervosa completas.

Muitos estão sendo diagnosticados com “transtornos alimentares não classificados”. Se você quer impedir esses transtornos de se desenvolverem, é preciso reconhecer que eles existem em um grau subclínico, sem necessariamente chamá-los de doenças. O que importa é que a criança e a família recebam bons conselhos. Há áreas em que olhar para os transtornos subclínicos é útil, do ponto de vista preventivo.

Folha – Os manuais ainda incluem transtornos de conduta sexual?

Goldberg – Sim. É útil ter nomes para transtornos para os quais existe um bom tratamento. Um dos aspectos positivos sobre problemas sexuais é que geralmente eles são tratáveis.

Folha – Os psiquiatras têm mostrado vontade de mudar a CID?

Goldberg – Nem todo mundo agirá em favor de uma nova classificação, mas é interessante ver como as classificações mexem com a visão dos médicos. Eles veem o mundo por categorias descritas nas grandes classificações, e acho que simplificá-las seria importante para eles e para a humanidade.

Autor: Rafael Garcia
Fonte: Folha online

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