Tarja preta: dose, remédio ou veneno?

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Saúde | 29/11/2009 | 15h42min
Tarja preta: dose, remédio ou veneno?
Saiba os benefícios e problemas que esses remédios trazem
Ângela Bastos | angela.bastos@diario.com.br
— Doutor, quero que o senhor me receite Rivotril.

— Por que você quer Rivotril? — pergunta o médico.

— Porque preciso estudar e passar em um concurso público.

O cenário é o consultório do psiquiatra Marcos Zaleski, em Florianópolis, especialista em dependência química pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e mestre em Psicofarmacologia no Departamento de Clínica Médica da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

— Não sei se tenho alguma doença. Insônia, sim. Uma colega de trabalho me deu Rivotril e foi ótimo.

O espaço é o balcão de uma loja no Bairro Kobrasol, em São José, na Grande Florianópolis. A atendente conta que a medicação devolveu-lhe a sensação de relaxamento, pois, mesmo depois de horas no MSN (programa de conversa simultânea pela internet) rolava na cama e não conseguia dormir.

Como a caixinha do remédio terminou, foi consultar com a mesma médica da amiga. Argumentou problemas pessoais, em família e no trabalho. Conseguiu o que queria:

— A médica perguntou se eu já havia tomado algum remédio. Disse que não, mas que minha tia tomava Rivotril e que todo mundo notava melhoras nela.

No bairro Prainha, em Florianópolis, o assunto é parecido:

— Os filhos crescem e a gente não descansa enquanto não voltam para a casa. Só mesmo com calmante para se aquietar — conta a mulher, que toma a medicação receitada por uma médica do SUS.

Rivotril é o remédio da moda. Um tranquilizante do grupo dos benzodiazepínicos, usado para controlar a ansiedade. Está na ponta da língua de pessoas que utilizam algum medicamento tarja preta. Precisem deles ou não.

Uma pesquisa do Ministério da Saúde aponta que o Rivotril é o segundo medicamento mais vendido no Brasil.

A Secretaria de Estado da Saúde não tem levantamento sobre o consumo dos remédios com tarja preta no Estado. O órgão repassa valores de acordo com as exigências dos municípios, por meio da Assistência de Saúde Básica, e cada um tem autonomia para a compra dos medicamentos.

Com mais de 20 anos de experiência no ramo, o médico Marcos Zaleski reclama:

— O profissional se pergunta o que está fazendo ali. O paciente acha que sabe o que tem e vem de casa com o nome da medicação.

Inversão de papéis, onde o médico deveria primeiro ouvir o paciente para depois dar o diagnóstico e recomendar o tratamento, é cada vez mais comum. Repete-se do consultório sofisticado ao centro de saúde da periferia.

Na antessala do consultório ou na fila do SUS, outra conclusão: o paciente também se apoderou de expressões antes restritas à classe médica. Não importa se tem o curso superior ou séries primárias. O vocabulário inclui termos como fobias, ansiedade, pânico, déficit de atenção e transtornos mentais.

A questão tornou-se mais evidente a partir dos anos 1990, quando os assuntos do cérebro romperam as barreiras científicas. Exames como ressonância magnética começaram a alimentar os pacientes com novas informações. A medicina mostrou às pessoas o que estava dentro de sua caixola. Fez mais: explicou a elas o efeito que determinada droga causa em algumas regiões do cérebro.

Houve outras mudanças. O modelo antes chamado simplesmente de loucura, passou a ser visto de forma diferente, como doença mental. Até os anos 1980, o psiquiatra era visto quase como um não-médico. Hoje, é comum um vestibulando dizer que fará Medicina para se dedicar à psiquiatria.

Casos de depressão avançam no mundo

É bom que façam isso. Previsões da Organização Mundial da Saúde indicam que a depressão, por exemplo, afeta 120 milhões de pessoas no mundo. É considerada a quarta enfermidade mais incapacitante. Um estudo feito em 1996 indicou que, em 2020, será a segunda doença entre a população, perdendo, apenas, para doenças isquêmicas do coração.

Mas não dá para esquecer de Paracelso. Médico e alquimista suíço que viveu entre 1943-1541, Phillipus Aureolus Theophrastus Bombastus von Hohenheim avisou: a dose certa diferencia um veneno de um remédio.

Já a psiquiatra Letícia Maria Furlanetto, professora no Centro de Ciências da Saúde da Universidade Federal de Santa Catarina, sugere cautela:

— A questão nem é tanto a dose. Mas que exista um profissional para receitar, acompanhar e suspender o uso quando necessário.

Fora disso, diz, a banalização é um demônio.

:: O que são as tarjas

Tarja preta: informa que o medicamento é de alto risco, não pode ser consumido sem prescrição médica. A venda deste tipo de medicamento deve ser obrigatoriamente com a apresentação da receita médica.

Tarja vermelha: de menor risco, embora também seja vendido apenas com receita médica. Não representa risco de vida, mas apenas de efeitos colaterais.

Sem tarja: pode ser vendido sem a apresentação da receita médica, mas o consumidor deve manter os cuidados recomendados para os demais medicamentos.

:: A escalada do ansiolítico no Brasil

Em 1998, o ansiolítico da época, o Lexotan, estava em sexto no ranking dos mais vendidos. Dez anos depois, o Rivotril aparece em segundo lugar.

1998

1 – Cataflam (analgésico e anti-inflamatório)

2 – Novalgina (analgésico e antitérmico)

3 – Hipoglós (pomada contra assaduras)

4 – Neosaldina (analgésico e antiespasmódico)

5 – Voltaren (antirreumático, anti-inflamatório e analgésico)

6 – Lexotan (ansiolítico)

7 – Redoxon (vitamina C)

8 – Buscopan Composto (antiespasmódico e analgésico)

9 – Sorine (descongestionante nasal)

10 – Vick Vaporub (unguento descongestionante)

2004

1 – Microvlar (anticoncepcional)

2 – Neosaldina (analgésico e antiespasmódico)

3 – Hipoglós (pomada contra assaduras)

4 – Buscopan Composto (antiespasmódico e analgésico)

5 – Novalgina (analgésico e antitérmico)

6 – Rivotril (ansiolítico e anticonvulsivante)

7 – Tylenol (analgésico e antitérmico)

8 – Cataflam (analgésico e anti-inflamatório)

9 – Neovlar (anticoncepcional)

10 – Luftal (antigases)

2008

1 – Microvlar (anticoncepcional)

2 – Rivotril (ansiolítico e anticonvulsivante)

3 – Puran T4 (hormônio tireoidiano)

4 – Hipoglós (pomada contra assaduras)

5 – Neosaldina (analgésico e antiespasmódico)

6 – Buscopan Composto (antiespasmódico e analgésico)

7 – Salonpas (analgésico e anti-inflamatório)

8 – Tylenol (analgésico e antitérmico)

9 – Novalgina (analgésico e anti-inflamatório)

10 – Ciclo 21 (anticoncepcional )

Fonte: Ministério da Saúde

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