Cidades sem médicos

04-02-2009
Cidades sem médicos
Por José Luiz Gomes do Amaral

Há muito se fala em interiorização de médicos no Brasil. É certo que o país tem um número excessivo de médicos em relação à capacidade do sistema de saúde pública absorvê-lo, o que faz com que esses profissionais se concentrem nas áreas de maior desenvolvimento, deixando vastas regiões sem assistência.

São várias as razões que determinam essa distribuição iníqua. A primeira é a falta de resolutividade nas estruturas de saúde encontradas nas regiões desassistidas. Isto faz com que o médico ali instalado não tenha condições de ver tornadas efetivas suas ações. Faltam-lhe recursos para diagnosticar e tratar os pacientes.

Em segundo lugar, para que um médico se fixe é preciso que haja ambiente de trabalho adequado. Pressões, sejam elas associadas ao excesso de demanda, à insuficiência de recursos ou mesmo ao uso político do médico por autoridades e gestores locais, tornam insustentável sua permanência em certos municípios.

O terceiro ponto é a impossibilidade de desenvolvimento profissional, que faz do médico um exilado em seu próprio país. No Sistema Único de Saúde não existe carreira que permita ao médico desenvolver-se e qualificar-se para postos que sejam, ao longo de sua vida pessoal, compatíveis com a profissão. A mobilidade é essencial na carreira, quando se pensa em prover com médicos áreas remotas. Isso só seria possível dentro de um plano de carreira federal. As carreiras municipais isolam os que dela fazem parte, impedindo deslocamentos para outros municípios.

O salário é um aspecto importante, mas não está entre os primordiais para a fixação dos médicos. O que nos surpreende é que todas essas causas de fixação ou migração são bastante conhecidas. Os que gerenciam a saúde, porém, insistem em ignorá-las. Perdem-se em alternativas periféricas que, longe de corrigir os desvios, apenas acrescentam-lhes distorções, degradando a profissão médica e ampliando o fosso que nos aparta do mundo desenvolvido.

Por José Luiz Gomes do Amaral – Presidente da Associação Médica Brasileira (AMB)

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Créditos:

Jornal Diário Catarinense, 04/02/2009

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