Médico critica sistema público de saúde dos EUA

23/01/2009
Extraído de http://www.escolasmedicas.com.br/art_det.php?cod=131

Médico critica sistema de saúde público dos Estados Unidos
Robert L. Martensen trabalha hoje nos Institutos Nacionais de Saúde.

Profissional da saúde escreveu livro para colocar o dedo na ferida.

G1 Ciências

Durante sua longa carreira médica, Robert L. Martensen, 62 anos, tem sido um médico de emergência e tratamento intensivo, tratando estimativamente de 75 mil pacientes. Ele ensinou bioética e história médica na Escola de Medicina de Harvard e na Universidade Tulane, em Nova Orleans. Depois que o furacão Katrina varreu sua casa e seu professorado em Tulane, Martensen se mudou para Bethesda, Maryland, para dirigir o Escritório de História dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH). Recentemente, Farrar, Straus & Giroux publicaram a crítica de Martensen sobre o sistema americano de saúde pública, “Uma Vida Que Vale Ser Vivida: As Reflexões de um Médico Sobre a Doença numa Era de Alta Tecnologia” (A Life Worth Living: A Doctor’s Reflections on Illness in a High-Tech Era). Nós conversamos em Nova York, durante a turnê de lançamento de seu livro, e posteriormente ao telefone. Segue uma versão editada das conversas.

Pergunta: A pedra fundamental da plataforma de saúde pública do novo presidente Barack Obama envolve organizar um sistema nacional de registros médicos computadorizados. Isso solucionará nosso problema com a saúde pública?

Robert L. Martensen: Registros eletrônicos compartilhados são valiosos. Eles reduzirão os erros e poderão economizar dinheiro, por reduzirem a duplicação de exames. Mas a crise do sistema de saúde é de uma magnitude bem maior.

Além de todas as questões sobre seguro de saúde e quem o paga, temos um sistema mais caro do que qualquer outro no mundo e onde quase todos estão insatisfeitos. Os pacientes dizem: “Ninguém me ouve”. Os administradores de hospitais estão insatisfeitos porque os resultados palpáveis se tornaram mais importantes e sua missão se perdeu. Os diretores das grandes organizações profissionais sentem que não há mais um centro; são apenas grupos de interesses atomizados, se acotovelando e misturando. Os médicos estão descontentes por sua incapacidade de praticar a medicina da forma que gostariam. Muitos estão desistindo.

Isso não é nada que a tecnologia possa consertar. O problema é dinheiro, pessoas e sistemas. Não digo que os registros eletrônicos não valham a pena. Mas apresentá-los como a solução é inadequado.

Pergunta: Em seu livro, você critica especialmente a modo americano de morrer. Por que você sente que esse aspecto do sistema de saúde está no caminho errado?

Martensen: A maioria dos americanos morre em hospitais ou casas de repouso, e nenhum deles está preparado para cuidar de pacientes terminais. Existem poucos tratamentos paliativos disponíveis, e muitas vezes a estrutura de pagamento do seguro-saúde não oferece esse suporte.

Então temos situações onde uma mulher de 90 anos com falência de órgãos é trazida a uma emergência e os médicos dizem: “Vamos arrumá-la”. Ou se a paciente começa a sofrer falência na casa de repouso, eles dizem: “Ninguém morre aqui. Vamos levá-la para a emergência”. Não é incomum, nos últimos seis meses de vida de um paciente, que ele seja transportado entre a casa de repouso e o hospital seis, oito, dez vezes, e submetido a dezenas de dolorosas e caras intervenções. O paciente é mantido artificialmente daquela maneira até que seu corpo desiste.

Eu realizei consultorias de ética para hospitais onde os pacientes ficavam na UTI por seis meses. Uma senhora idosa havia passado de um sério problema neurológico para o último estágio de doença renal, sem esperança de jamais mover um dedo novamente – e ninguém disse à família: “Sua mãe está morrendo”. Quando finalmente foi dito, os parentes ficaram furiosos.

Pergunta: O que os médicos deveriam dizer, em vez disso?

Martensen: Eu acho que os médicos deveriam ficar confortáveis em ser realistas. Se for o caso, o médico deveria levantar a ideia de que esse processo da doença pode ser fatal. Hoje nós dizemos: “Não posso acabar com as esperanças de uma pessoa”, como se os médicos estivessem entregando a vida. É preciso apoiar as esperanças que são realistas, e não essa terra da fantasia.

Eu vi como muitas dessas intervenções são desumanas. Ao ressuscitar uma pessoa idosa, você pode quebrar suas costelas durante a massagem cardiorrespiratória. Se você as coloca num respirador, pode acabar sedando-as tão profundamente que elas ficam praticamente inconscientes.

Pergunta: Pode existir algo parecido com uma boa morte?

Martensen: Meu pai teve uma. Ele era engenheiro de sistemas. Aos 80 anos, desenvolveu sérios problemas pulmonares, e foi muito sabido sobre como as coisas podem dar errado em sistemas complicados, como são os hospitais. Para garantir que nada fosse feito a ele para prolongar sua vida apenas tecnicamente, ele se assegurou de que sua esposa, o médico e o hospital tivessem cópias de suas diretivas médicas. Ele não enfrentou um longo período de agonia, pois não quis ser colocado num respirador. Meu pai morreu confortavelmente, cercado de pessoas que o amavam. Ele estava lúcido até cerca de cinco minutos antes de sua morte.

Acho que gostaria de ter isso para mim, também. Não é fácil conseguir. Vi situações onde as pessoas deixam diretivas específicas e os hospitais ainda assim as ressuscitam.

Pergunta: Por muitos anos você trabalhou como médico de emergência. Por que essa especialização?

Martensen: Uma sala de emergência é onde a borracha encontra o asfalto na medicina. Em termos dos tipos de casos que você vê, cada turno é diferente. Gosto disso. Gosto de fazer a clínica geral, com o aspecto apimentado. Gosto de dar diagnósticos.

Certa vez, tive um paciente, ele tinha 19 anos e era de Bangladesh. Ele tinha febre alta e caroços sob suas axilas. Eu tinha acabado de ler o livro “Diário do Ano da Peste”, de Daniel Defoe, onde o autor descreve pacientes com adenite, ou lesões do tamanho de nozes causadas pela peste. E foi isso que passou pela minha mente quando olhei para o pálido garoto. Ele tinha a peste bubônica, no fim das contas.

Pergunta: A lição desse caso seria que os médicos, como parte de seu treinamento, deveriam ler mais história e literatura?

Martensen: Isso teria benefícios imediatos. Se eu não tivesse lido Defoe naquela ocasião, poderia ter errado no diagnóstico de meu paciente, lhe dado antibióticos e o enviado para casa, que era um abrigo de sem-tetos. A infecção poderia ter se espalhado rapidamente.

Na verdade, muitos médicos de emergência têm interesses fora da medicina. É uma especialização que, enquanto a pratica, você está totalmente presente. Quando termina seu turno, você deixa tudo para trás. Um número surpreendente de médicos de emergência é formado por artistas, até mesmo escritores.

Pergunta: Você ainda pratica a medicina?

Martensen: Não. Seis anos atrás, eu estava trabalhando num hospital no centro-oeste. O outro hospital da região havia fechado, e éramos o último hospital disponível, atendendo o dobro de pacientes. Eu era responsável por 60 em oito horas – pessoas com ferimentos a bala, ataques cardíacos, crianças com meningite. As condições tornaram impossível a prática da boa medicina. Me sentia patinando no gelo. Queria apenas sair. Minha história não é a única. Mas eu sinto falta dos meus pacientes. Sinto falta da emergência.

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